terça-feira, 1 de junho de 2010

VITÓRIA por Zé Lúcio Cardim

        A frase é roubada do surfe, mas cabe perfeitamente no universo das corridas de rua: " O melhor corredor é aquele que mais se diverte". Na verdade, o surfe, que num primeiro momento tem quase nada a ver com correr - exceto talvez pela eventual coexistência entre os dois tipos de esportistas à beira-mar - apresenta mais similaridades com as corridas do que se imagina: a não obrigatoriedade da competição para o corredor/surfista, o prazer da prática apenas com os seus pensamentos,  a solidão do exercício não como obstáculo mas como objetivo, as viagens para correr/surfar em lugares especiais... Quem diria, enfim, que "caminhar sobre as águas" e "voar no asfalto" fossem tão próximos?
       A coisa do "divertir-se mais", entretanto, parece vestir corredores de rua melhor do que a mais confortável camiseta dry fit. A festa que são as corridas vai muito além da luta pela vitória, até porque 99% dos participantes sabem que suas chances de vencer ou subir no pódio são equivalentes à de ganhar sozinho na Mega Sena - e sem jogar. Mas quem disse que a alegria de uma prova dominical é limitada àquela estruturazinha de madeira inatingível para nós, meros mortais e corredores diletantes? Nossa competição pode ser com o relógio, com a barriga, com os amigos, com a planilha de treinos... Nessas corridas, repare, a competição é invariavelmente "com", jamais "contra". Pode ser gramaticalmente discutível, mas participe de uma prova dessas para perceber que ali ninguém está contra absolutamente nada...
          Se você é da turma que faz 10km (as provas mais numerosas no Brasil) em, digamos, menos de uma hora, da próxima vez, antes de ir embora, gaste um tempo de olho na linha de chegada. E descubra que a felicidade de teminar uma prova não é, de forma alguma, inversamente proporcional ao tempo. Em outras palavras, neguinho está se lixando se o pace foi de 6, 7 ou 8 min/km. Eles chegam correndo, caminhando ou se arrastando, com a invariável sensação de dever cumprido - assim como você, que chegou meia hora antes, ou do pelotão de elite, já esperando há um tempão apenas para pegar seu troféu e ir cuidar da vida. Mas a maior vantagem desses corredores que demoram um pouquinho mais é que normalmente seus amigos estão lá, esperando para aplaudir, incentivar e festejar a chegada desse pessoal menos apressado - um belo bônus.

           Decidir quem está se divertindo mais em uma prova de rua é impossível. Elite, aspirantes a, estritamente amadores, ex-sedentários... A medalha pendurada no peito é como um carimbo de satisfação garantida para todos, um certificado de diversão, um diploma do domingo ganho. Da próxima vez que você, corredor de rua, for bombardeado com a inevitável pergunta pós-prova, vinda do vizinho ou colega de trabalho: "E aí, venceu?", não titubeie: "Não, empatou".
            Corra!

Texto extraído da Revista O2, abril de 2010

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